conduta · cotidiano

Seu cabelo, racista

Seu cabelo é Racista?

Racismo: Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria.

“racismo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/racismo [consultado em 10-09-2014].

Dá pra um cabelo ser racista? Bem, tecnicamente não. Mas dá pra ser racista com o cabelo.

Há alguns meses, desde março desse ano, eu venho passando pela Transição Capilar. Isso significa que parei com as químicas de alisamento e relaxamento, e resolvi aceitar o meu cabelo como ele nasce. Aceitar as raízes dele, as minhas. As raízes volumosas, onduladas, cacheadas, espiraladas, crespas; As raízes negras.

“Mas Mari, você é branca, não é negra!” Minha pele é branca (até pálida), mas minhas raízes, minha mãe, meus avós, são negros.

Agora, quem conhece minha mãe pode estar se perguntando se ela não é morena. Vamos dizer que “moreno” está para “negro” como “cacheado” está para “crespo”. Um está contido no outro, e a função da palavra é apenas amenizar um sentido “pesado demais”. Mas aqui vai: Morenas, vocês são negras. Brancas, vocês provavelmente têm ascendência negra. Somos todas irmãs de sangue. Sinto muito se é um choque para você, mas o Brasil é um país predominantemente negro.

E o que eu quero com tudo isso? Principalmente, quero deixar claro que não tem nada melhor que aceitar seu cabelo natural. Seja ele liso, ondulado, cacheado, crespo, com ou sem definição, com ou sem volume, tenha você 5 tipos diferentes de cabelo na sua cabeleira: Ame-se.

Ame-se porque ninguém lá fora deveria dizer que esse ou aquele tipo de cabelo é mais bonito que o seu, que você deveria “abaixar só um pouco a raiz”, “soltar os cachos”, “domar o cabelo” nem nada parecido. Ame-se porque você nasceu assim, e aceitar seu cabelo é assumir sua identidade. É se descobrir, se conhecer. É aceitar suas origens e jogar fora toda a ditadura de padrão de beleza europeu.

“Mas eu acho bonito liso e você não tem nada a ver com o que eu faço com o meu cabelo!”
Exatamente, concordo plenamente. A ideia aqui não é convencer ninguém a alisar ou deixar de alisar seu black, mas sim expor o que está por trás desse alisamento, que é essa adequação ao padrão. Cada um é livre para fazer o que lhe fizer bem. Eu mesma vivo dizendo, no grupo Cacheadas em Transição (grupo fechado e exclusivo para mulheres), que cada uma só deve tomar essa decisão se estiver à vontade consigo mesma. Se, no meio do caminho, resolver cortar, raspar, fazer dread ou mesmo alisar novamente, beleza! Somos todos humanos e sabemos onde o nosso calo aperta. Mas isso também significa que não é para pressionar a amiguinha crespa a alisar “porque fica mais bonito”. Se ela usa o cabelo cacheado, crespo, longo, curto, deve ser porque ela gosta e não porque os outros gostam. O cabelo é da amiguinha, não seu, ok?

Quando alguém diz que cabelo crespo é difícil de domar, é porque está tentando adequá-lo aos padrões brancos. Esse tipo de cabelo é uma característica negra, assim como os lábios mais carnudos, os traços mais largos. Essas características não. Devem. Ser. Domadas. Ninguém sai por aí tentando frizzar um cabelo liso-escorrido. Por que então tentam impor esse padrão liso, sem volume, sem um fio desalinhado, aos negros? Não é bizarro que, curiosamente, o cabelo mais almejado e exaltado seja o mais “branco” possível? Começa pelo cabelo e quando vemos as meninas já estão aprendendo técnicas de maquiagem que afinem os traços, iluminem a pele, disfarcem os lábios carnudos. Isso tudo é um massacre! É negar cada uma das características que as fazem ser quem são e desconstruir uma identidade racial valiosíssima!

Pra ilustrar, dá pra citar o caso da Blue Ivy, filha da Beyoncé. Fizeram uma PETIÇÃO pedindo que penteassem o cabelo dela. E por pentear, entenda: prender, disfarçar, colocar pra baixo. Qualquer coisa que não fosse o natural do cabelo crespo, que é, pasmem: crescer PARA CIMA. Eu sinto muito se alguém pensa que o cabelo de Beyoncé cresce todinho liso e para baixo. O cabelo crespo, por natureza, cresce para cima e só com o crescimento ele tem peso necessário para “descer”. Deal with it!

Uma criança que é criada alisando o cabelo aprende que esse é o normal. Aprende que seu cabelo natural é feio, que suas características são as erradas. Ela aprende que nasceu errada, e é inegável o efeito negativo que isso tem na autoestima de qualquer pessoa. Isso me lembra da história da boneca negra que li nesse blog e nesse blog. Essas meninas crescem vendo a Barbie como modelo a ser seguido! Assim como inúmeras outras bonecas brancas, de olhos claros, traços finos. Uma criança negra não encontra sua representação nos brinquedos mais desejados, nos desenhos, nas mídias, nas mulheres consideradas lindas. Ela percebe que seu corpo não é desejável e passa a negar, disfarçar, detestar tudo que a afaste do ideal exaltado.

Há uma expressão que fica cada vez mais conhecida no meio das cacheadas e correlatas: Ativismo de Cabelo. Agora me responda, tem como não ligar uma coisa à outra?

Pessoas são mortas apenas por serem negras. Pessoas são invalidadas porque alguém determinou que elas não devem ter voz, e nós acatamos. Até quando vamos permitir todas essas formas de violência?

Para os interessados, links que achei pertinentes:
Cabelo x Racismo – Geledés
Jornalista teve que esconder cabelo para tirar passaporte
Grupo Cacheando em Salvador

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