cotidiano · pra pensar

#NinguémMerece

Eu gostaria muito de saber como e por que as pessoas conseguem justificar um tipo de violência, mas condenam outros. Se você ainda não sabe, caro leitor, foi feita uma pesquisa com um resultado chocante: UM MONTE de gente acha merecido, ou ao menos justificável, que uma mulher de roupas curtas seja estuprada. ESTUPRADA! Violentada! Tolhida da liberdade de escolha sobre quem pode tocar seu corpo.

Eu gostaria de perguntar a essas pessoas, se elas acham normal e aceitável que mulheres de burca sejam estupradas. Sim, pasme: mulheres vestindo roupas conservadoras como as burcas também são estupradas. Porque do lado de lá, o discurso é o seguinte: A culpa é das mulheres que usam Máscara para cílios. Rímel, sabe? Porque deixa o olhar “sensual e irresistível”. Ora, se um homem não consegue olhar um par de olhos maquiados sem querer se enfiar em qualquer buraco, não pode ser culpa da mulher.

Também quero perguntar qual o nível de aceitação e justificativa para estupros de crianças, idosos, incapazes. Depende da roupa da vítima também ou é inaceitável? Monstruoso? “A vítima nesse caso nem tem chance de se defender”?
Mas… qual vítima de estupro ou qualquer vítima de violência sexual pode se defender com um discurso desses? Os outros querem logo saber o tamanho da roupa, as proporções do corpo, a conduta, a quantidade de parceiros sexuais, se era moça direita; Dizem que ela provocou, que o homem não consegue se segurar.
E que tipo de ser estúpido e descerebrado são os homens*, que se deixam levar pelo tesão? Pelo desejo sexual, e nada mais. Essa pessoa não tem um pingo de noção de direitos, de integridade física e mental? Como esse agressor não sabe que o bem estar de qualquer pessoa, o direito de viver, estar, habitar, existir em paz, é infinitamente mais importante que sua “necessidade” de ter um orgasmo? Um orgasmo, gente! Estamos falando de alguém que consegue ter um orgasmo, um prazer intenso, sabendo que está humilhando alguém. Sabendo que tem uma vítima desesperada em suas mãos. Isso é deprimente, mas mais deprimente que isso é saber que METADE do povo entrevistado acha isso aceitável!

De onde saiu essa ideia de que uma violência é justificável porque o homem não é responsável por seus atos?

Não sei o que mais me incomoda nessa coisa toda: Se são os homens que aceitam a condição de irracionais irresponsáveis ou as próprias mulheres, que culpam umas às outras, mas se excluem individualmente dessa “mira”. Não faz o menor sentido e as pessoas não parecem pensar sobre o assunto. Afinal, onde está escrita a Norma Internacional de Medidas que separa roupas “curtas” de roupas “comportadas”? Isso de “roupa curta” é tão subjetivo que me dá nojo que alguém que use esse argumento.

O fato é que nada, repito, NADA, pode justificar tamanha violência. A violação do corpo de alguém por um ímpeto tão egoísta. E para quem afirma esse tipo de insanidade, sinto informar que estuprador não faz questionário nem precisa de motivos pra atacar. O único motivo que eles precisam é a própria vontade, e não tem nada mais importante que isso.

Não, querida, você não merece ser estuprada. Não, você não precisa transar com ele porque estava bebendo na balada. Nem porque ele quer, nem porque ele está insistindo tanto. Não, sua roupa não justifica ele passar a mão no SEU corpo. Não, sua maquiagem não te torna patrimônio público.
Não, homem, a mulher não é patrimônio seu.

*Generalizando, ok? Tenho certeza que não são todos os homens que perdem a noção de sociedade quando vêem um par de pernas ou seios à mostra.

——–

Não.
Não importa se a vítima estava de burca ou de fio dental.
Não importa se era tarde da noite, ou cedo demais, e ainda não tinha amanhecido.
Não importa se o metrô estava cheio, se o ônibus estava lotado ou se era um transporte público vazio.
Não, não importa nem se a vítima fazia faculdade, se era da Igreja, fosse qual fosse.
Não importa também se estava sóbria ou bêbada, acompanhada ou sozinha.
Não importa quantos anos tinha, quantos parceiros sexuais já teve, quantas vezes ela fazia o mesmo percurso e nunca nada havia acontecido.
Não importa, também, quantas vezes ela recriminou as “colegas” por saírem de casa com microssaias ou biquínis.
Não importa se ela ia à Marcha da Família ou das Vadias.

O agressor não perguntou nada disso, nem lhe importava, nem que ela gritasse com todas as forças. Ele apenas se aproximou e fez uso de sua força. Se ela estava de roupa longa, rasgou, violou, invadiu. Se era curta demais, afastou e satisfez suas vontades mais primitivas. Agrediu, violentou, abusou.

Se tinha cabelo curto ou longo, não fez diferença.
Se era respeitada ou “rodada”, tanto fazia.
Se era uma criança, adolescente, adulta ou idosa, ele também não reparou.
Se era casada ou solteira, pra casar ou pra pegar, não era de sua conta.
Se estava grávida ou se era virgem, quem liga?
Se ela pediu que parasse, se ela chorou e implorou piedade, foi em vão.

Ele queria saciar sua ânsia pelo prazer, e nada mais. Afinal, é para isso que ela estava lá, disponível, não era? Afinal, o que seria mais importante que seus próprios impulsos, seu próprio prazer? O direito alheio? A integridade mental e física de outra pessoa? Quem inventou esses limites? Pra ele, essas linhas simplesmente não existem.

E pra melhorar o seu dia:

Se você também se indignou com o pensamento da “maioria”, participe da campanha #NinguémMerece #NãoMereçoSerEstuprada! Por que ninguém merece ser ignorado e subjugado!

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