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Todos os animais merecem o céu e eu não vou cozinhá-los

Há quase três semanas, decidi não comer mais carne. Há quase três semanas estou feliz por ter tomado uma atitude que há anos vinha me incomodando, mas que eu era covarde o suficiente para interromper o fluxo de pensamentos quando saía da zona de conforto.

Mamilos são polêmicos? BITCH PLEASE, experimente dizer que é vegetariano numa roda de amigos.
Mamilos são polêmicos? BITCH PLEASE, experimente dizer que é vegetariano numa roda de amigos onívoros.

Nunca me agradou ir ao aviário, quando criança, pra minha vó comprar frango. Ela comprava o frango já sem cara de bicho, aquele filé de peito rosadinho que quase não parece um animal, mas volta e meia chegava alguém que queria um frango ainda mais fresco. A pessoa escolhia o frango de seu desejo e o encarregado pegava a ave e a levava debaixo do braço pros fundos da loja, passando por uma porta. Alguns momentos de pesar depois, voltava com o embrulho. E aquilo me intrigava, mas eu era pequena demais pra pensar nisso.

Eu nunca gostei de rodeios, touradas. Nunca entendi a graça de ver um animal agonizando. Não compreendo e não aceito explicações (se é que existem) sobre como é possível se divertir vendo, ou mesmo causando, a morte lenta e sofrida de um animal. Antes que comecem, não, “matar mosquito não conta”. Um boi não suga o seu sangue e dificilmente vai te passar alguma doença. A menos que você o coma.

Quando era mais nova, tinha uma carne que minha mãe fazia e eu adorava. Era deliciosa, e eu chamava de “carne molinha”, porque era bem mole mesmo. Não sei por que motivo, houve uma janela de anos em que não fizeram mais aquela carne aqui em casa. Um belo dia, anos depois, minha mãe chega em casa animada, dizendo que ia fazer língua de boi! Eu fiz cara de nojo. Quem poderia gostar de língua de boi? Bem. Você já descobriu o que era a “carne molinha”? Você acha que eu comi depois de descobrir?

Também não comia nada que “me lembrasse” que se tratava de um animal. Não gostava de cabeça de peixe, patas, pescoços, orelhas, língua… Mas eu não entendia por quê. Eu não queria entender.

Alguns meses atrás, talvez já faça um ano, eu vi um site que me chocou. Nele, uma empresa ofertava bifes de cães de raça criados livres, sem stress e com garantia de uma carne saborosa e saudável. Eu chorei. Chorei muito. Eu não queria acreditar, mas pessoas no mundo comem carne de cachorro todos os dias, e muitas delas por opção, sim. O site, eu vim a descobrir, tinha exatamente esse intuito: Chocar. Se você ama um Beagle, como aceita que uma vaca, uma galinha, um novilho de menos de um ano, morra pra você comer e se fartar? Pra mim, claramente faltava coerência. Nessa ocasião cheguei a comentar com Allana sobre a leve vontade de virar vegetariana. Apesar desse choque, mais uma vez adiei o término do raciocínio. Ainda faltavam informações.

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Algumas pessoas sabem que há alguns meses a Loura, a gatinha preferida da minha mãe, adoeceu. Depois de muitas semanas e vários veterinários desinteressados, descobrimos que ela não tinha muito tempo de vida. Há algumas semanas, ela morreu. Por esse motivo, eu comecei a ler o livro “Todos os animais merecem o céu“, e uma parte do livro mostra o que acontece nos matadouros. Sofrimento. Animais morrendo em série, acuados e mantidos em fila para não terem escapatória. Descargas imensas de adrenalina, que eu comia junto com a tal proteína. O churrasco perdeu a graça, porque ganhou um corpo e um rosto. Mais do que isso, ganhou uma mãe criada para procriação em série, uma vida curta, limitada e cheia de stress, uma alimentação repleta de hormônios e uma morte sem sentido.

Se eu já não aceitava a morte por diversão, se não gostava de lembrar que estava comendo animais, perceber que milhões deles estavam morrendo todos os dias pra que eu mantivesse o hábito – desnecessário – de comer carne me causou asco. Aquela frase bastante difundida – “Se ama uns, porque come outros?” – passou a fazer todo o sentido. Se eu estava sentindo tanto a falta da Loura, se eu não gostaria que o Pepe (meu cachorro) morresse agora, por que comer um cadáver de boi ou de frango?

Por muito tempo eu resistia a essa ideia. Não queria ver um bife, um hambúrguer ou um delicioso nugget com queijo como um “cadáver”, um “bicho morto”, nada de desagradável. Era delicioso; Eu me recusava a sequer imaginar que pudesse estar prejudicando alguém.

Não pense que há um interruptor de liga/desliga pra “gostar de carne”. Também não é da noite pro dia que se resolve mudar a base da alimentação. É depois de muita pesquisa, muita leitura e muita insegurança que alguém consegue tomar essa decisão. E, pelo menos pra mim, perceber a quantidade de comidas “temperadas” na carne que estavam à minha volta só me chocou ainda mais. Arroz com presunto, feijão, verduras refogadas com bacon, paio e outras carnes e embutidos. Pastéis, salgados, petiscos. Não é confortável e não é simples quando você percebe que aquele misto quente “contém vida animal”. Ser vegano, ou pelo menos vegetariano estrito, deve ser ainda pior. No mercado “comum” tudo contém leite ou derivados, ou ovos. Basicamente você precisa saber a composição/receita de tudo o que for comer. Eu tenho evitado principal e basicamente carne propriamente dita. Eu não sabia, mas molho inglês, na maior parte das vezes, tem carne. Gelatina é feita a partir de ossos e muito mais. Até o tempero do miojo tem carne em pó. Mas a parte gostosa é descobrir as alternativas pra tudo isso.

Nessas últimas semanas, além do sentimento bom de seguir os meus princípios, estou me sentindo leve e meu organismo está respondendo muito bem à “nova” alimentação. Mas mais do que isso, tenho aprendido muita coisa e estou buscando manter a alimentação ainda mais equilibrada do que já fazia, quando onívora. Claro que não pretendo dispensar o acompanhamento de um/a nutricionista, mas estou feliz de aprender tudo isso. Estou feliz e satisfeita por fazer algo em que eu realmente acredito. E isso, amigo, churrasco nenhum paga. Eu não preciso de carne pra viver, e você?

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