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Guardians e o medo do preconceito alheio

Olá, caro(a) leitor(a)!

Aqui estou eu de novo. Parece que quando eu (re)começo a escrever, é difícil parar.
Acontece que tenho acompanhado alguns blogs, tumblrs e afins, mais polêmicos que mamilos, com o meu tema queridinho: feminismo. (Novamente? Ainda? Virou um hábito, fato. Deal with it.) Entre diversos posts e comentários que me fazem pensar, pirar e gostar cada vez mais disso tudo, lendo um post e alguns comentários eu lembrei de… Guardians! (já falei dos livros aqui)
Já explico: Para quem não acessou o link do post, o foco do texto eram brinquedos machistas; Os que acostumam os meninos a serem os heróis da ação e as meninas a cuidar de bonecas, arrumar a casa e se tornarem divas lindas e produzidas para a sociedade. E nos comentários surgiu a discussão: Será que é válido colocar as crianças na “linha de frente” dessa luta pelos simples direitos iguais? Por que não ensinar futebol e deixar que uma menina brinque na rua ou deixar meninos brincarem de casinha e aprenderem as tarefas domésticas? Será que mantê-los adequados aos olhos da sociedade e evitar preconceito é mais importante do que ensiná-los que todos são iguais e temos as mesmas obrigações e direitos? Não é justamente isso que se tenta esclarecer todo esse tempo?

Mas o que Guardians tem a ver com isso, Mari?

Pois é. Me lembrei que no terceiro livro, se não me engano, o personagem Ryan desabafa com um amigo. Ele se apaixonou por Anne, uma menina loira de olhos claros. Mas a história e o desabafo dele não são sobre o romance, mas sim sobre seu passado. Ele e a mãe são negros e o pai e o irmão mais novo, brancos. Ele conta que desde pequeno presenciou sua mãe ser confundida com a babá do irmão, como se pelo fato de ela ser negra fosse óbvio que ela era babá, e não mãe da criança. E, obviamente, as pessoas olhavam torto quando as duas crianças diziam ser irmãs; Achavam qualquer coisa, menos que eram filhos do mesmo casal. E por ter vivido isso tudo, Ryan decidiu que se casaria com uma mulher negra, para evitar que seus filhos passassem por essa mesma enxurrada de preconceitos. Mas agora, apaixonado por uma moça branca, ele já tinha certeza de que deveria abandonar essa besteira de se adequar ao que a sociedade esperava dele e seguir em frente. (Só pra constar, ela também gostava dele e em momento algum parece que só depende dele que o relacionamento aconteça, muito pelo contrário.)

Ai é que está o ponto. Parando pra pensar, eu vejo que nunca usei roupas mais curtas porque fui ensinada que não era certo, e aprendi a não gostar e até hoje se visto algo no meio da coxa já acho que estou mostrando demais, me sinto envergonhada e tenho medo de que mexam comigo e/ou me ridicularizem e /ou julguem. Sempre me ensinaram que era certo menina gostar de menino, não roer as unhas, cuidar do cabelo e não correr ou jogar futebol como os meninos, porque era masculino e isso não era bom. Eu precisava ser feminina, porque é isso o que se espera de uma menina.
Mas e se esse ensinamento fosse puro medo? Medo de que eu fosse diferente e que sofresse preconceitos e julgamentos por isso. Isso está incutido tão fundo dentro da gente, tão imperceptível que detectar esse tipo de instinto é libertador. Libertador porque sabendo que ele está lá, você tem como lutar contra ele. Sem isso, você apenas segue o fluxo do que sempre fez e é mais um na correnteza. Ora, mesmo com esses ensinamentos, no fim das contas eu sofri, mesmo tendo – teoricamente – aprendido tudo certo. Talvez tenha sofrido menos, talvez não. Nunca me adequei totalmente aos “ensinamentos” e fui aquela pré-adolescente que acha que é rebelde e resolve que não vai usar rosa. Acho que naquela fase eu não queria ser julgada pelo que eu era. Ou até queria, mas não me importava.

Mas vamos caindo nos braços da sociedade, e tudo o que você ouve à sua volta são piadas sobre o seu cabelo cheio demais, sobre como você é magr@/gord@/alt@/baix@/fei@/bonit@/feminin@/masculin@ demais e isso penetra na sua pele, na sua vida. Deixamos de usar roupas, sair, falar, demonstrar sentimentos, enfim, deixamos de agir de tal ou tal forma porque achamos que não fica bem. Mas não fica bem aos olhos de quem, cara-pálida? Você não gostou mesmo ou acha que alguém pode não gostar? É a questão. E aí já nem tem mais a ver só com o direito de mulheres, homens, brancos ou negros, porque todos, TODOS, em algum momento, deixam de viver por causa dessas regras e é algo a se discutir e esclarecer.

Eu não sou a favor do “faça o que quiser”, sempre bato na tecla de que o direito de um começa onde termina o de outro e acho que esse limiar é muito difícil de ser traçado, mas se pensarmos direitinho dá pra chegar num denominador comum e uma pessoa não incomoda a outra. O julgamento vai estar lá por algum tempo ainda, enquanto não for publicamente aceito que você pode até não concordar com as atitudes de outra pessoa, mas se essa atitude não prejudica ninguém, não há o que fazer senão discordar e ponto. O julgamento, a condenação só faz reprimir as pessoas e criar mais e mais acéfalos agindo e criando seus filhos pra agir de acordo com um padrão insatisfatório e opressor.

Não há problema nenhum em ensinar a um menino como lavar a louça e cuidar da casa, porque quando ele crescer e tiver sua própria casa (esperamos!), vai saber como não viver na sujeira e ainda vai poder não limpar, se e quando ele não quiser. Além disso, brincar de casinha (ou de qualquer coisa) com outras crianças é importante por conta da socialização. Se ele quiser dançar, pintar, desenhar, que seja! Não há problema nenhum em incentivar uma menina a praticar esportes ou brincar com carrinhos ou trocar lâmpadas (ok, talvez mais crescidinha por causa do risco, hahah). Permita, brinque junto, leve, incentive! Deixe florescer as reais aptidões, a criatividade e o que mais há em ser criança. Sem as pressões da vida adulta. Ou eles podem (e provavelmente vão) se tornar adultos frustrado e ser só mais um na multidão seguindo o padrão, como nós. Se eles quiserem tomar um rumo diferente mais tarde, é só mudar o comportamento. Isso poderia acontecer de um jeito ou de outro, com uma ou outra criação, se a personalidade daquela criança não aceitar as ideias que lhe foram sugeridas, mas é mais fácil se inserir no contexto e “ser aceito” pela sociedade do que sair enfrentando tudo e todos, depois de uma vida dentro das regras.

Vale ainda ressaltar que NÃO, a culpa NÃO é “da sociedade”, mas sim nossa. Somos nós que não fazemos nada de diferente. Somos NÓS que achamos lamentável mas continuamos em nossos rumos porque isso é mais fácil do que parar pra pensar. Mas chegou a hora de mudar, e temos que dar o primeiro passo pra nos livrarmos das amarras sociais. Sei que pelo mundo afora esse trabalho de formiguinhas já vem acontecendo e me orgulha muito presenciar essa fase!
E você, leitor, o que acha disso tudo?

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Um comentário em “Guardians e o medo do preconceito alheio

  1. Em primeiro lugar, que alegria ter Guardians como exemplo de um post tão legal!! =) Obrigada, Mari!

    E em segundo lugar, ADOREI o post! E concordo com tudo o que você disse. É incrível como muitas vezes nós realmente deixamos de fazer algo não por preconceito nosso, mas por temer o preconceito do outro.

    Infelizmente, muito do ser humano acaba sendo um produto da forma como as atitudes e gostos lhe são impostos desde a infância.

    Ah, e foi impossível, pra mim, ler que um dos seus temas preferidos é o feminismo e não te achar, com isso, ainda mais parecida com a Shermmie rs. A Mic é ultra-feminista tbm, mas a Shermmie eu acho que ainda ganha rs

    Beijos, Mari-Shermmie-chan! =)

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