conduta · indicação · Luta · pra pensar · Uncategorized

Por que fechar a cortina?

Há algum tempo, venho passando por um momento interessante da vida, com momentos de sentimentalismo extremo e de reflexão profunda sobre coisas que me dão dor de cabeça e me fazem querer sentar à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas e assistir o sol se pôr. Em um desses momentos, agradeci a Deus pelas pessoas que conheci no último ano, incluindo Van Guedes e Allana, dois blogueiros no tempo livre que se tornaram bons amigos em pouco tempo. Van dispensa apresentações; Se quiser, vá ao blog dele. Allana é femista ou feminista – são diferentes, e não sei qual a vertente dela – e já conversamos brevemente sobre o assunto algumas vezes. Por meio dela, acabei conhecendo um blog muito interessante, o Ativismo de Sofá, um blog de mulheres para mulheres (e homens, por que não?). Um blog feminista.

Alguns dias atrás li esse post, que me abriu os olhos pra ver que no fundo sempre fui feminista. Não com esse “rótulo”, mas sempre que pude expressar minha opinião nesse ponto, ressaltava quão absurdo é ouvir que a mulher tem que tomar cuidado com a hora de sair de casa, a postura no trabalho, a quantidade de homens com quem se relaciona, a roupa que veste, a carreira que escolhe e tantas outras miudezas que, de acordo com essa sociedade cega, dão a qualquer um (inclusive a outras mulheres) o direito e falar mal, julgá-las e geram posturas favoráveis à violência contra a mulher, sugerindo que “se ela apanhou/foi estuprada/discriminada, é porque fez por merecer” e outras frases ainda mais abusivas. E é isso que é o feminismo: defender os nossos direitos com unhas, dentes, posts, vídeos, caminhadas e manifestações e o que mais pudermos usar.

E esse problema cultural é tão imenso que as novelas retratam tais situações – como uma suposta crítica, que para alguns não faz a menor diferença e parece mais incentivar essas posturas. Quadros como violência contra a mulher (aquela novela em que o Edgar bebia e agredia a esposa, e ela só o botou pra fora de casa muito tempo depois), “estupro corretivo” e outras formas de abuso sexual e não-sexual, são veiculados sem quase nenhum trato ou discussão mais profunda sobre isso. No caso da violência contra a esposa, “até que foi mais comentado” e acabaram dando um jeito na situação (na novela!), mas em outros casos dá pra ficar na dúvida se a intenção do enredo é censurar ou incentivar tais práticas.

Ontem à noite sentei por alguns minutos em frente à TV e estava passando “Salve, Jorge!”. Foi a primeira vez que tentei assistir e esta foi a cena a que assisti: Uma jovem chega à frente de uma casa com um vestido curto e pergunta a um homem se a “fulaninha” está em casa. Ele diz que sim, ela entra e ele vira o pescoço pra olhar o rebolado da menina, fazendo algum comentário esdrúxulo. Na próxima cena, a “fulaninha” está trocando de roupa no quarto na companhia da jovem supracitada e, quando percebem, o tal homem está parado na janela do quarto, assistindo-a trocar de roupa. (Para constar, a janela aparentemente dava pra uma área de serviço dentro da própria casa, e não para a rua) Ela sai do quarto gritando e fazendo queixa à mãe, que – fiquei ainda mais chocada- é companheira do tal tarado.

E a mãe? Bem, ela fica surpresa com a afirmação de que ele estaria espiando a menina trocar de roupa e com a cara mais lavada do mundo, pergunta: “Mas se você ia trocar de roupa, por que não fechou a cortina?”

PARA TUDO! Como assim, moça? Ele tem o direito de olhar a sua filha trocar de roupa, simplesmente por a janela estar aberta? O fato de ela não ter fechado a cortina significa carta branca para qualquer um parar ali e espiá-la fazendo qualquer coisa, dentro de sua própria casa, de seu próprio quarto? Mediante a reação da mãe, a menina grita ainda mais, afirmando que a mãe não está acreditando nela, e sai de casa levando consigo a “amiga gostosa”. E pra fechar a cena: O homem começa a tentar se desculpar e se justificar para a companheira, mas ela diz que não duvidaria dele, e manda um beijinho. Ele diz que também a ama e continua na dele, com cara de quem fez merda e sabe o que fez.

Para mim, parecia uma crítica a esse tipo de situação, que infelizmente realmente ocorre. Já minha avó, que teve outra interpretação, concordou com a mãe da menina e reafirmou que ela devia ter fechado a cortina pra não dar condição de ser espiada. Na minha opinião, se você passa por algum lugar e vê algo sem querer, você no máximo pede desculpas, vira o rosto e sai dali. Parar e ficar observando (escondido ou não) não é a atitude esperada de uma pessoa que tenha boas intenções. Não é porque está “à vista” que qualquer direito deva ser violado. Existe uma coisa chamada privacidade, mas parece que as pessoas se esqueceram de como funciona e para que serve.

Mas, como falei antes, nunca vi a novela em questão e sinceramente não pretendo acompanhá-la por falta de tempo, então fica latente a curiosidade de como o caso vai se desenrolar e se isso será explorado e comentado como deve ser. Se alguém quiser me manter informada, sinta-se à vontade.

Com esse post abro a minha mente para o feminismo, recebendo-o de braços abertos e desejando me unir à massa que clama por nossos direitos. Ao contrário do que possa parecer, o feminismo não luta contra os homens, mas sim a favor dos direitos das mulheres. Lutando para mostrar que somos iguais e que todos merecem respeito. Assim, fecho minha primeira observação pública de como o machismo e a violação dos direitos da mulher estão espalhados por qualquer lugar.

Anúncios

3 comentários em “Por que fechar a cortina?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s