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Estereótipos e eu me amarro num gordinho!

Esse final de semana eu fui a um show. Um show bacana, encerramento do Rio+20 que não foi tão bacana assim, com Milton Nascimento, Maria Gadu, um coral de Portugal, o grupo Playing for Change, dois meninos, meninas duas crianças cantando um RAP porreta e índios com as anteninhas do Chapolin Colorado. Isso sem falar no cheiro verde que volta e meia invadia nossas narinas. Nada contra nem a favor, muito pelo contrário.

Mas não é sobre isso que eu vou falar. Depois do show, sentamos em frente a uma “cantina”, ali mesmo na casa de show. Conversa vai, conversa vem, vimos uma moça um tanto quanto acima do peso (tudo bem, ela estava bem acima do peso), usando um vestido justo e listrado. Eram listras verticais, que por algum motivo a faziam parecer ainda maior do que ela era. Mas ela nem ligava pros olhares, e andava de um lado pro outro como a dona do lugar.

Aí eu ouvi novamente uma frase que eu detesto:

“...tem que ter bom senso, né? Ela não tem corpo pra usar um vestido desses.”

Acho que o problema da gente, de todos nós, é dizer que não somos apegados a estereótipos. Mas somos. De uma forma discreta que nós nem percebemos, mas somos. Por que uma gordinha não pode usar uma roupa justa? É “agressivo” pra você? Você não gosta da visão? Ela não tem noção pra se vestir e mostra mais do que deveria?

Seguindo esse raciocínio, isso quer dizer que alguma “gostosona” poderia vestir tranquilamente uma roupa no mesmo estilo e seria aplaudida e desejada, porque o que é bonito é pra se mostrar. Mas, cara, quem é que define o que é bonito? Alguém alguma vez determinou que ser gordo é feio e ser magro, mas não magro demais, é bonito, e de repente nós temos isso incutido em nossas mentes, sem que percebamos.

Uma gordinha de roupa apertada te agride? Pois é. A Waleska Popozuda também me agride com as roupas curtas. Eu acho essa mulher feia, mas ela liga pra minha opinião? A autoestima dela a leva a fazer coisas que até Deus duvida, sem medo de parecer ridícula.

Oh, mas você deve ser uma balofa aí atrás, defendendo seus direitos e –

Antes de pensar isso, saiba: Querido, eu sou magrela! E ouvi todo tipo de piadinha no colégio por causa disso. Imagine: magrela, branquela azeda, cabelo crespo, sem muitas amigas. Daí tiramos: Olívia palito, mulher macho, bambu, e por aí vai uma lista que não acaba. Eu adoraria ser mais “cheinha”, ter umas carnes a mais nesses ossos que Deus me deu e com isso aumentar minha autoestima e autoconfiança, que sempre andaram lá embaixo. Eu passo, ou passei, mais ou menos o oposto que os gordinhos passam. Aparentemente eles têm “carne de mais”, eu tenho “carne de menos”. Pros padrões, é ruim do mesmo jeito.

Lembro de uma vez que chorei ao ver uma foto minha de tomara-que-caia, apoiada com os braços numa grade. A foto foi tirada de trás de mim, e como eu estava apoiada pra frente, algumas costelas ficaram à mostra nas costas. Nada parecido com uma modelo anoréxica e cadavérica, mas foi a minha fase mais magra até hoje: 47/48Kg. Eu chorei por me sentir feia. Por me sentir desajustada e fora dos padrões. Não que hoje eu esteja dentro dos padrões, longe disso. Ainda me vejo magra demais e evito olhar pro meu corpo porque nem sempre eu gosto do que vejo. Apenas tentei seguir em frente e me desligar do que eu achava que os outros achavam de mim.

Pesando todos os lados, acho que não existe um “bom senso” comum. O que é bom pra mim pode não ser pra você, e vice-versa. E se não sabemos lidar com essas diferenças de opinião, temos um problema.

Eu, por exemplo, me amarro num gordinho. Tenho um amigo no trabalho que só não agarro mais pra não ficar feio, mas adoro abraçar aquele grandão. Faço faculdade de Sistemas de Informação e, como qualquer faculdade de TI, não é difícil encontrar um típico gordo-nerd e fazer amizade com ele. Adoro esses grandalhões, e falo isso do fundo do meu coração. Meu namorado também não é nenhum magrinho: Ele tem aquela “barriguinha” saliente que eu adoro e não o trocaria por nenhum magrelinho estilo Neymar por aí. É claro que tem gente que acha que é sacanagem, que eu falo debochando. Mas eu gosto mesmo, e daí?

Acho que ninguém tá satisfeito com o que tem/é. Gordinho que não gosta de ser gordinho, magrinha que não gosta de ser magrinha, negro que queria ser branco, branco que queria ser negro, mulher que queria ser homem, homem que queria ser mulher e por aí vai. São infinitos descontentamentos que todos temos, e quando vemos alguém desencanado, que assume a forma que tem e busca ser feliz com aquilo, achamos que essa pessoa não tem bom senso. Ela não tem o bom senso de entrar nos padrões que algum louco estabeleceu, antes de usar aquela roupa. Ou não sabe que aquela roupa não combina com os sapatos, ou que o cabelo está armado, ou liso demais, ou alto ou baixo demais.

Acho que falta bom senso, sim, mas falta menos pra quem é feliz com o que tem e mais pra quem cuida da vida dos outros e esquece de lidar com os próprios complexos. Porque se você (acha que) não tem complexos, é porque nunca se conheceu de verdade.

Se você não gosta de determinado estilo, com certeza existe alguém que gosta. E por outro lado, mesmo que muitos gostem de algum tipo, sempre haverá alguém que não vai gostar. Portanto, não dá pra ficarmos preocupados se seremos ou não aprovados pela maioria, quando não há sequer um consenso dessa maioria. Seja feliz pelo que você for, como você for, ou, se quiser, corra atrás desse estereótipo “perfeito” que ninguém nunca alcançou.

Particularmente, eu prefiro a primeira opção.

Update: Pretendo fazer outro post relacionado em breve, não consegui desenvolver tudo que queria, e ainda há muito o que falar.

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