cotidiano

A cuspida da diva ruiva

Há muito tempo, numa terra não muito distante, foi marcado no Citibank Hall um show de uma banda que eu simplesmente adorava. O ingresso era, se não me engano, R$60 (meia entrada). Na época, no final do ensino médio, ter essa quantia disponível era praticamente impossível, e eu não queria pedir pra minha mãe. Ou seja: Eu não iria ao sonhado show.

Acontece que um amigo meu tinha um tio que trabalhava numa rádio, algo assim. Essas tretas que a gente conhece bem, sabe? Esse amigo ficou um tempão tentando conseguir ingresso com esse tio pra gente ir ao show. E, adivinhe? Ele conseguiu! Dois ingressos, com o valor zerado e sem identificação no verso. E é claro que um desses ingressos foi da sortuda que vos fala.

Mas como nada é tão fácil, tinha que ter mais alguma coisa pra impedir: Pouco tempo antes do show, que seria numa sexta-feira, a nem tão trágica notícia: Haveria prova de Biologia na bendita da sexta feira, e ainda seria em dupla! Não lembro direito, mas sei que nós nem pestanejamos: Conversamos com a professora, dissemos que teríamos que faltar, os três (Edu, Amanda e eu), no dia da prova. Não sei nem se nós contamos que iríamos a um show no dia, mas sei que ela acabou deixando a gente fazer a prova na semana seguinte. Acabou juntando mais um amigo que também precisaria faltar no dia, fechamos duas duplas e tudo certo. Sim, ela deixou a gente fazer na semana seguinte, e em dupla. Menos um problema! Agora: Como ir?

Três adolescentes, loucos por Paramore e doidos pra receber uma cuspida bem dada da Hayley Williams na cara, sem um puto sobrando. O que fazer? Precisávamos ir cedo, porque, de acordo com o Orkut – Éééé, faz tempo -, havia grupos se organizando pra chegar lá de madrugada, e nós precisávamos chegar cedo também pra ficar na grade.

Conversamos e nos organizamos: Dormiríamos na casa da Amanda, cujo pai tinha carro – e saco – e poderia levar a gente lááá no Citibank Hall. De madrugada. Sim, meus caros, nós fomos pra lá de madrugada mesmo, mas já falo sobre isso. Precisávamos de algo pra comer antes de sair, e que fosse rápido e barato. Solução: Macarronese. Fomos pro mercado com a digníssima tia Beth, mãe da Amanda, e fizemos uma vaquinha torta pra comprar as coisas. Foi a primeira vez que eu comi macarronese, nunca mais esqueci. Geladinha, tudo fresquinho… Muito boa mesmo. Ah, o show!

Não consigo me lembrar de que horas acordamos, mas não sei nem se realmente chegamos a dormir. Era uma ansiedade tamanha que o coração acelera só de eu lembrar. Eu lembro que chegamos lá no estacionamento às 4h50. Levando em consideração que estávamos em Irajá, é só fazer as contas pra saber que horas saímos de casa. Sério, sem o apoio dos pais da Amanda a gente não conseguiria. Bem. Chegamos lá a essa hora e já tinha gente na fila. E daí? Tinham uns dois ou três grupos na nossa frente, a gente ia ficar na grade de qualquer jeito. Mas nossa aventura só estava começando: O show só seria às 22h.

Durante o dia, ainda na fila, conhecemos gente do fórum Paramore, vimos muita gente colorida e usando aqueles óculos RAIBAM pra ficar na moda. Tinha até uma sósia da Mallu Magalhães, que na época eu nem sabia quem era, mas que era realmente muito parecida. Mas chegou um momento crítico: Como eu disse lá em cima, o Edu conseguiu dois ingressos, e um ficou pra mim. Obviamente, o outro estava com ele pra ser vendido, mas não sabíamos como ou pra quem vender. Conforme o dia foi passando, a fila foi tomando proporções enormes. Quando finalmente tomamos coragem de sair andando pela fila pra vender o ingresso sobressalente, ela estava gigantesca. Simplesmente gigantesca. Mas não nos impediu de conversar e mostrar o ingresso pra alguns interessados, com um baita medo de algum segurança ver e querer saber do que se tratava, já que no ingresso estava escrito bem visível “venda proibida”.

Seguimos firmes e fortes e logo encontramos um grupo que esperava uma amiga, que ainda não tinha ingresso. O problema é que eles não tinham o ingresso e nem os R$50 que o Edu queria no ingresso dele. Eles choramingaram tanto, e nós queríamos tanto vender aquilo e voltar pro nosso lugar no começo da fila, que achamos a solução: Pedir. Sim, senhores, pedir o dinheiro pra comprar o ingresso. Nós tínhamos o ingresso; Eles queriam o ingresso; Nós queríamos dar o ingresso e pegar dinheiro em troca. E era provável que, na pior das hipóteses, eles conseguissem uma quantia razoável pra pelo menos negociar. E assim começamos uma nova excursão: Em busca do dinheiro para o ingresso prometido. Agora imagine que situação fantástica: Um grupo de jovens, suados, cansados e empolgadíssimos, no estacionamento do Via Parque, pedindo dinheiro pra todo mundo, pra conseguir vender/comprar o ingresso. Porque é óbvio que a gente foi junto. Pra cada grupinho que a gente pedia, era a mesma história: Eles querem comprar o ingresso, a gente quer vender, precisamos (claro, todos precisavam do dinheiro pra atingir o objetivo comum) de R$50, você pode ajudar? E as reações eram as mais diversas. Gente que não ligava, que mal olhava pra gente, gente que dava R$2, R$5, moedinhas, qualquer coisa. Mas o legal foi que a maioria ajudou, porque todo mundo queria estar naquele show e acho que se colocavam no lugar da menina sem ingresso. Alguns minutos correndo pra cima e pra baixo na fila, explicando a coisa toda e – BINGO! – fechamos os R$50! Ingresso vendido e dinheiro no bolso (do Edu), voltamos pra fila felizes, mas o dia ainda não havia chegado ao fim.

Caiu a noite e a fila estava impossível. Acho que queriam criar uma atmosfera mais intimista, então mandaram que a fila fosse compactada: Todo mundo grudado, chegando o máximo pra frente, conhecendo partes dos corpos alheios que a gente nem sabia que existiam. E a gente já nem tava tão possivelmente próximo da grade assim, porque os grupos que havia de madrugada simplesmente se multiplicaram na nossa frente. A tensão aumentava a cada momento. O suor escorria, as mãos tremiam, a barriga tentava expulsar o almoço/lanche corrido e o nervosismo só crescia. Durante toda a tarde nós comentamos sobre as estratégias de como chegar à grade logo, ressaltando sempre os degraus lá dentro, onde fica a plateia (Quem já foi ao Citibank sabe do que estou falando). O maior medo era de cair ali e estragar tudo. Quem caísse seria deixado para trás sem misericórdia e lembrado como “The fallen” para todo o sempre. Repassamos as coordenadas, e nos preparamos. Os portões abriram. A algazarra foi grande, eram jovens de todos os tamanhos correndo na direção das roletas. Logo novas e longas filas se formaram ali, com jovens que aguardavam nervosamente pela revista de suas mochilas. Pareciam cavalos antes da largada de uma corrida, resfolegando e pisando nervosamente. Passamos pelas roletas. Automaticamente, começamos a corrida desvairada para a Terra Prometida: A grade.

Estávamos em uma ótima posição. Os três amigos, juntos e felizes, depois de todo o dia debaixo daquele sol escaldante. Estávamos a poucos metros de distância do nosso objetivo maior, a cuspida da nossa diva ruiva. Só havia um último obstáculo a vencer e depois disso era aguardar o show começar. Entre correrias, gritos e risadas histéricas, nossas e das pessoas à nossa volta, passamos o primeiro degrau sem grandes dificuldades. Mais alguns metros e estaríamos lá na frente. Mais alguns…  Mas aí, caro leitor, é óbvio que algo aconteceu. Amanda, Amandinha, nossa querida Amanda. Amada Amanda. O segundo degrau foi um pouco demais para a emoção que ela sentia. E ela tropeçou. Tropeçou em câmera lenta, e caiu rápida e pesadamente como uma jaca, com a diferença que jacas não deslizam e não ficam vermelhas. Aí foi algo como a cena épica de O Rei Leão, quando o Mufasa está caído e os últimos antílopes saltam por cima dele. Mas Edu e eu voltamos, puxamos ela de qualquer jeito e continuamos correndo em direção à grade. Já havia algumas fileiras de pessoas na nossa frente, mas ainda assim, tínhamos um ótimo lugar.

Agora, lugares garantidos, voltamos a atenção à Amanda, Amandoca, Amandinha. Mega vermelha. Se havia uma coisa vermelha naquele lugar, era a Amanda. E suada, muito suada. O nervosismo, a ansiedade, o sol na cabeça o dia todo, junto com o tombo tiveram um impacto enorme no sistema nervoso dela, e ela sentia desde dor até falta de ar. E a gente se apavorou. O que fazer? Sair dali? Levá-la pra emergência do próprio Citibank, do lado do palco? Não mesmo. Se fizéssemos isso, era show perdido na certa. Mas uma coisa era certa: Ela não podia ficar ali. E nós iríamos junto. Tivemos que abrir caminho por entre os sortudos outros fãs que estavam ali, grudados, colados, suados, nojentos, dando adeus ao sonho. A gente tava tão perto… Depois de remarcar a prova, acordar de madrugada, chegar lá cedo, vender o ingresso, o sol escaldante… Bem, mas ainda estávamos ali. As fotos ficaram uma merda, o vídeo nem se fala. Estávamos exaustos, sujos, maltrapilhos, queimados de sol. Mas assistimos, cantamos, gritamos, ficamos roucos, e foi maravilhoso. E quando o show terminou, estávamos em êxtase. Pelo menos eu estava. Eu ajoelhei e chorei. Por alguns segundos, mas chorei. De exaustão, de emoção, por ter realmente realizado aquele sonho. Pela versão mais foda de “My Heart” que a Hayley deu pra nós, mesmo estando com laringite. Com uma pena da Amanda e um tanto preocupada, mas ela também estava bem afinal de contas.

Minha ruiva maravilhosa e cuspidora. *-*

Acho que nunca vou esquecer esse dia. Foi um dia intenso, cheio de emoção. E acima de tudo, foi um dos melhores da minha vida!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s