conduta · cotidiano

Embora amargamente, alegre sempre.

Sabe os livros extraclasse que os professores insistem em passar, mesmo sabendo que ninguém lê? Pois é. Eu lia todos. Sempre li todos eles. Para ser sincera, só não terminei um deles: O Cortiço. Mas foi porque era longo demais, não tive tempo de terminar. Eu lia todos eles, desde criança. Uma vez eu li um livro chamado O Peixe Pixote.
Tem a história aqui.  Mas nesse vídeo passa as páginas do livro. O áudio está completamente dessincronizado, só vale a pena mesmo pelas imagens, que pra mim são pura lembrança.

Se não quiser ler, não tem problema. Eu resumo: Pixote era um peixe muito tristonho. Ele vivia num lago vazio, escuro e triste. De vez em quando ele ia à superfície e via as cores aqui fora, a alegria, as crianças brincando, e ficava triste por não ter nada disso no lago escuro dele. Até que, num belo dia, ele se viu em um lago diferente: Tudo colorido, vários peixes brincando, peixinhos, peixões, tudo muito alegre e vivo! Ele pensou que tivesse passado durante a noite para outro lago, sem perceber. Mas não: Até então, ele viveu o tempo todo de olhos fechados.

Essa história sempre me marcou muito. Na infância eu não sabia bem por quê. Só achava legal, mesmo. Divertido e irônico, um peixe nadando de olhos fechados. Peixes nem fecham os olhos, afinal! Mas hoje eu sei por que esse conto ainda me marca tanto.

O mundo vive de olhos fechados.

Vinha pensando alguns dias atrás sobre como a gente perde a noção de mundo. Cara, o mundo é enorme. E a gente só consegue pensar nos próprios problemas. Isso me frustra, e muito. Eu li em algum lugar que é muito mais fácil achar solução para os problemas dos outros, e acho que isso explica realmente por que é mais fácil lidar com alguma situação quando conversamos a respeito com um amigo, ou mesmo um terapeuta. Essa pessoa está de fora. Não está envolvida diretamente na situação, pode opinar fria e racionalmente. Mesmo que um amigo se envolva emocionalmente, ele não vai deixar de te falar o que você precisa ouvir, só pra te deixar feliz. Pelo menos, ele não deveria.

Mas é mais ou menos isso que me frustra: Ainda temos tempo para ouvir os problemas dos outros? Ainda queremos ouvi-los?

Não, não queremos. Sério, não queremos. Nós simplesmente fechamos os olhos pra eles, o tempo todo. Problemas são chatos! É mais legal continuar incentivando a doação de sangue, adoção de animais abandonados e “lutando” contra a homofobia. Claro, no facebook. Porque hoje em dia tudo acontece no Facebook. Se você não tem facebook, faça um e verá que o que eu estou falando é verdade. Tudo acontece lá. Lá, todo mundo é legal, é sincero, é fiel, é a melhor e mais honesta, a mais digna pessoa do mundo. E, claro, nunca está de mau humor. Até tem umas ou outras indiretas, mas já entrou pra lista de regras de conduta da internet que mandar indiretas é feio. Então agora as pessoas mandam indiretas pras pessoas que mandam indiretas, incentivando-as a dizer tudo na cara! Porque assim fica tudo muito mais claro e  educado, obviamente.

Agora, voltando às regras de conduta… É tipo uma etiqueta: As pessoas que te adicionam nas redes sociais não querem saber os seus problemas. Elas não querem ver atualizações sobre como você está solitário, ou carente, ou triste com alguma coisa. Elas não querem saber se você está em depressão e realmente precisa de alguém lá, fisicamente, pra conversar e contar tudo o que há. Só desabafar, chorar, até rir das suas indecisões, frustrações ou qualquer outro problema para o qual você não ache a solução sozinho. Porque não é legal. Não é engraçado, cara. Elas não têm tempo pra isso, são tantos updates hilários (mesmo que repetidos) no Face, tantos vídeos caricatos no Youtube, tantos tweets inúteis na timeline, que elas simplesmente não querem seguir uma pessoa desagradável como você. Se elas quisessem contato com pessoas desagradáveis, estariam lá fora, no mundo real.

Elas querem você na vitrine da vida: Fotos lindas, com os melhores efeitos do instagram, maquiagem impecável (se exagerar pode virar post de algum blog memetizado), nem muito gordo, nem muito magro. Com um vestidinho preto. Indefectível. Sempre sorridente, bem disposto, animado, alegre, sem dilemas e sem mau humor. Ah, e sem dar foras ou cortes em ninguém, porque também é feio. As pessoas querem você numa felicidade inatingível, diga-se de passagem. Porque quando você vive, não pode ser tudo perfeição. O máximo – e o pior – que você pode fazer é entrar na onda, vestir um sorriso nessa cara e postar no “feice” que VIDA QUE SEGUE! Como disse Carol Rodrigues mais cedo. Ao menos você sabe pra onde está seguindo? Pra onde estão seguindo você?

Eu prefiro seguir amarga, porém, alegre. Alegre porque todo mundo tem problemas, e ninguém tem a solução para todos eles. Ainda bate uma frustraçãozinha por não ser melhor que todas as outras pessoas pelo menos nisso (porque no resto já sou bem pior), e conseguir as minhas próprias soluções pra tudo: Levantar a autoestima, arrumar esse cabelo e engrossar as coxas. Mas esses são os menores dos meus problemas.

Ah, que se dane. Isso aqui não é terapia, afinal, e eu não sou a Xuxa.
Vida que segue! Mas sem fechar os olhos, pra não tropeçar nas pedras no caminho.

Ah, e ninguém precisa me dar o livro, tá? Eu tenho ele aqui. Só pra constar.

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2 comentários em “Embora amargamente, alegre sempre.

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