cotidiano

Boca de avó e sacos de lixo.

Vim hoje, aproveitando o mal estar que se instalou em mim nesta tarde chuvosa, para tentar contar algo que se passou comigo há alguns anos, mas que até hoje eu lembro. É só ver uma chuva caindo um pouco mais forte que eu já me lembro desse dia.

Eu ainda estava no segundo grau, então foi aproximadamente 4 anos atrás. Era uma semana como as últimas têm sido, aqui no Rio: chuvosa, cinzenta e fria. Período letivo, eu sempre muito caxias, sequer considerava a possibilidade de faltar à escola por causa de chuva. Fizesse 40 graus positivos ou negativos, eu iria à escola. Ou pelo menos era o que eu pretendia.

Vou fazer um parênteses para contar um detalhe sobre minha avó. Prometo que já, já entenderão por quê. Ela tem uma boca… Abençoada. O que ela fala, acontece. A gente só não ganha na loteria porque ela fala na sacanagem. Só que às vezes, ela se preocupa um pouquinho demais, e acaba falando o que não deve… e é claro que vai acontecer o que ela falou. Burrice tua se não ouviu, ela avisou! Dito isso, vamos aos fatos:

Numa noite fria e chuvosa, o vento gelado lá fora, as vidraças das janelas batendo, uma família se preparava para dormir. E eis que a avózinha, pequenina, ouvindo o barulho torrencial da chuva, pergunta à sua neta querida:

– Amanhã se tiver chovendo assim, ‘cê não vai pra’scola não, né?!

– Não vai estar chovendo assim, e eu vou sim, vó. Tenho que ir. – Diz a neta, certa de que não podia perder as aulas por qualquer motivo.

A avó insiste, dizendo que é perigoso, mas a neta não dá ouvidos. Não faz sentido ficar em casa por uma chuvinha qualquer. É só ir até o ponto de ônibus, depois do outro ponto até o colégio. Simples, não tem nada perigoso. Assim, sem entrarem num acordo, foram todos dormir.

Na manhã seguinte, a menina levanta no horário de costume e percebe que:
1 – Não está chovendo;
2 – Está frio pacaceta;
3 – Ela poderá assistir sua aula tranquila, afinal.
(A menina sou eu, no fim das contas, então vou parar com essa palhaçada de escrever em terceira pessoa.)

Considerando isso, me arrumei como de costume, mas meti o guarda chuva na mochila, por via das dúvidas. Tomei um café muito corrido, me despedi rápido da mãe e da avó e saí de casa. Ainda no quintal, eu percebi que o céu estava escuro… Um escuro engraçado, sabe? Daqueles que indica que vai dar merda. Mas hoje eu sei disso. Naquele dia eu só queria chegar na escola.

Quase chegando ao portão, eu percebi que estava começando a chover. Enquanto eu tirava o guarda chuva da mochila, aqueles pingos se tornaram realmente chuva. Abri o portão e saí para a rua, já de guarda chuvas e pensando no que minha vó tinha dito. Mas é claro que meu lado rebelde e autossuficiente(é assim que escreve isso na reforma?) pensou “Que se f…irme esse tempo, eu vou pra escola!

Continuei pela rua enquanto percebia que não ouvia mais nenhum som da manhã: Só a chuva. E não era pouca chuva não, o som era de uma cachoeira. De verdade. O volume de água aumentava conforme eu chegava mais ou menos na metade da rua. Era dia de lixeiro. Por que eu lembrei disso? Porque, ao olhar pro lado da calçada, eu vi vários sacos de lixos sendo carregados pela correnteza. Correnteza?! É, tinham se formado dois “rios” na minha rua. Um de cada lado da rua, e eu indo pelo meio, que era mais alto. E o guarda-chuva a essa altura era mera formalidade, porque eu já estava completamente encharcada.

Quando faltavam só uns 20 metros pro final da rua, a água já estava cobrindo o meu pé. Pensei em subir pra calçada, que era mais alta, mas agora realmente tinha um rio enorme entre nós. Olhei em volta e descobri que não tinha como prosseguir: Os sacos de lixo estavam todos boiando à minha frente, numa verdadeira lagoa que se formou na entrada da rua.

Tive que me render. Cheia de raiva, agora de mim mesma, por ter passado por “aquilo tudo” a troco de nada, dei meia volta. Vi duas moças, uma mãe e uma filha, vindo na minha direção, assustadas com tanta água. Sinalizei pra elas, disse que não tinha como passar por lá e indiquei que dessem meia volta e fossem na mesma direção que eu. Assim, fomos juntas. Era uma cena maravilhosa: Três pessoas, ensopadas, debaixo de uma chuva ridícula, correndo da água que não parava de subir. Quando passei por um bueiro, vi uma barata que até então eu pensava só existir em filmes: Enorme, gorda, cor de laranja. Quase uma daquelas que tem no Tibia, sabe?

ImagemA coisa mais parecida com ela que achei foi essa, de Madagascar. Mas eu juro que era enorme mesmo. Acho que tinha até rato, mas não quero deixar nojento demais.

Continuando… Seguimos de volta pela rua, na direção da parte mais alta, que era exatamente de onde eu tinha vindo e de onde eu nunca deveria ter saído. Mas a chuva ainda estava ridiculamente forte, e tinha uma cobertura de telhas na calçada em frente ao quiosque da Dona Maria. E foi pra lá que nos dirigimos. De lá, ensopadas, não tínhamos saída. Tudo cheio d’água, uma barulheira do caramba e eu só consegui ligar pra minha mãe. Tava a poucos metros de casa, mas tinha tanta água entre onde eu estava e o portão…

Liguei. Ela atendeu preocupada. Perguntou onde eu estava, como estava. Expliquei tudo pra ela. Disse que tinha mais duas moças comigo. Ela se ofereceu pra me levar um guarda chuva, tadinha. Não tinha noção do estado em que eu estava. Ofereceu também pra levar uns sacos plásticos pra eu enrolar o pé e não terminar de molhar tudo. Tentei argumentar, mas ela não ouviu, mas ela me convenceu a aceitar. Ofereci para as meninas também, elas fizeram uma cara de nojo… Que eu não entendi.

Na hora, eu quase me emputeci com as duas. Ofereço ajuda, elas não têm opção melhor, e ainda assim fazem carinha de nojo pro saco? Ainda tentei argumentar, eu devia estar de bom humor, no dia. E que bom humor! Falaram alguma coisa sobre ser ridículo. Mano. Se tu tiver que pular num poço de merda até o joelho e te oferecerem uma calça de borracha, grossa, impermeável, mas feia, tu vai pular pelado pq a calça é feia? Então, meu irmão, se fode vira aí!

Peguei meus sacos, amarrei nos pés e fui-me embora com a minha mãe ainda tentando inutilmente me cobrir com o guarda-chuva. O que é um pinguinho pra quem tá todo molhado? Pra falar a verdade, nem os sacos adiantaram muito, porque eu já tinha afundado os pés na água mesmo. Mas daí a rejeitar ajuda só porque os sacos não estão na moda, meu amor, não é comigo!

No dia seguinte, no colégio, fiquei sabendo que um colega meu que mora perto da minha casa conseguiu chegar ao colégio, mesmo com a chuva. Só um problema: Ele chegou molhado até o peito. A rua dele era mais baixa que a minha, então tinha muito mais água na saída da rua. Ele “meteu os peito” e foi assim mesmo. Sem sacola plástica, sem nada. Agora me diz, imagina se fosse um poço de merda?

E eu nem posso reclamar… Minha vó me avisou!

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